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Projeto na Mídia

Entrevista de Jorma Routi à jornalista Luciana Rodrigues, Jornal O Globo (www.oglobo.com.br), publicado 2 de junho de 2006, p. 29 © Todos os direitos reservados a O Globo e Agência O Globo. Este material não pode ser publicado,transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.

Educação é o melhor investimento possível

Especialista finlandês defende modelo econômico que transforme tecnologia e conhecimento em benefício social

SÃO PAULO. O professor Jorma Routti é um dos maiores especialistas mundiais em políticas públicas para a economia do conhecimento. Foi responsável pela Diretoria Geral de Pesquisa Científica e Desenvolvimento da Comissão Européia depois que sua experiência na Finlândia se tornou um modelo internacional. Hoje à frente de uma empresa privada, Routti esteve em São Paulo na semana passada para uma palestra no Instituto Fernand Braudel. Lá, explicou como a Finlândia, um país cuja economia era baseada na indústria de papel e celulose e de máquinas, superou uma recessão no início dos anos 90 - o PIB chegou a cair mais de 6% em 1991 - para se tornar um líder em competitividade tecnológica. Por trás desse sucesso, um amplo consenso nacional: um órgão do Parlamento define as estratégias de desenvolvimento econômico em seminários regulares que reúnem políticos, sindicatos, industriais, líderes sociais e diretores das grandes empresas de mídia.

Legenda da foto: PARA ROUTTI, o conhecimento é a forma mais rápida de alcançar crescimento econômico: "Microsoft, Google e Skype surgiram há menos de dez anos"

O Brasil, a exemplo da Finlândia, pode desenvolver uma economia baseada no conhecimento?

JORMA ROUTTI: O Brasil tem um grande poder econômico, foi abençoado por recursos naturais. Muitos países iniciaram seu desenvolvimento com recursos naturais. Porém, cada vez mais, é preciso avançar na economia de conhecimento. Trata-se não apenas de incentivar a pesquisa e o desenvolvimento, mas também de traduzir seus resultados em benefícios econômicos e sociais. É a forma mais rápida de alcançar crescimento econômico no mundo de hoje. Grandes empresas como Intel, Microsoft, Google, Skype e Nokia, surgiram há menos de dez anos. E as novas tecnologias são mais importantes em manter a eficiência nas indústrias tradicionais do que em construir indústrias completamente novas. O conhecimento permite rápido crescimento e ao mesmo tempo provoca quedas bruscas para quem não se ajusta. Estamos falando de vencedores e perdedores, de círculos virtuosos e viciosos.

O senhor afirma que um país não deve tentar ser o melhor em tudo, mas sim aproveitar nichos em que possa ser o melhor do mundo. Nesse sentido, o senhor acredita que o governo deva dar incentivos a indústrias específicas?

ROUTTI: O papel do governo é promover o ambiente geral de negócios. Haverá muitas empresas tentando estratégias diferentes, e ninguém pode decidir, por antecipação, que num setor particular será o melhor do mundo. É claro que há áreas que são vocações naturais. No Brasil, há a indústria de alimentos e os combustíveis renováveis, nos quais o componente de conhecimento é elevado. Mas ninguém pode adivinhar se outras áreas não terão sucesso também.

A população brasileira é de 186 milhões e, na Finlândia, são 5,2 milhões de habitantes. É possível adaptar a estratégia finlandesa no Brasil?

ROUTTI: A Finlândia é um país fácil nesse sentido, um país pequeno, com uma população homogênea. Talvez seja mais um clube do que um país, todo mundo se conhece. Mas fomos muito bem sucedidos em construir estratégias nacionais compartilhadas por toda a sociedade. E, em certa medida, o sucesso da Finlândia é contraditório com a visão comum de que é impossível combinar um sistema de bem-estar social com uma economia competitiva. Não só a Finlândia, como os outros países nórdicos, mostram que um sistema social justo é um elemento de competitividade.

Num país grande como o Brasil, seria possível alcançar este consenso em torno de estratégias nacionais?

ROUTTI: Talvez fosse o caso de buscar o consenso em nível estadual. Mas há áreas que são comuns a todos. As tecnologias de informação e comunicação se aprimoraram tão rapidamente que seria estúpido não usá-las em todos os lugares. E essa é só a plataforma. O conteúdo precisa ser feito com foco nas necessidades locais, respeitando a língua e a cultura locais. Nem todo o conteúdo do mundo pode ser feito por Hollywood e Seattle. É preciso ter em mente que o conteúdo é o futuro da indústria de tecnologia.

Enquanto a Finlândia aparece em primeiro nos rankings de educação, o Brasil teve o pior desempenho, entre 40 países, em testes de matemática aplicados pela OCDE. Como o Brasil pode dar um salto para a economia do conhecimento?

ROUTTI: A educação é o melhor investimento possível. O que é muito importante também em toda a América Latina é a eficiência do sistema bancário e do setor público, combater a corrupção. A eficiência do sistema bancário determina qual taxa de juros o empreendedor terá que pagar. Se a taxa real de juros supera 10%, isso dificulta o crescimento das empresas. Deve haver uma relação adequada entre risco e retorno.

O governo brasileiro aprovou uma Lei de Inovação que prevê incentivos fiscais a investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Este é um estímulo adequado?

ROUTTI: Não é uma estratégia muito fácil, porque às vezes é preciso cinco ou até dez anos para descobrir se uma inovação era de fato uma inovação. Alguns países dão incentivos fiscais para investimentos em pesquisa e desenvolvimento e, então, é a senha para que muitos funcionários passem a usar jalecos brancos nas empresas: ou seja, as companhias tentam fazer com que tudo pareça pesquisa e desenvolvimento. A intensidade em tecnologia tem mais a ver com a estrutura das empresas e da economia. Quando a Finlândia entrou em recessão, nos anos 90, a escolha natural seria fazer obras públicas, construir estradas, etc., para gerar emprego. Em vez disso, optamos por investimentos estruturais. Praticamente triplicamos os gastos com pesquisa e desenvolvimento (de 1,5% do PIB para quase 4% hoje). Ao investir em pesquisa, os benefícios não são imediatos. Em alguns casos, os benefícios nem ocorrem. Mas, ao menos que se tente, nunca se alcançará esses benefícios.

O senhor destaca a importância de a educação ser acessível a todos, não importando sexo, origem social ou região do país. O Brasil é muito desigual e hoje discute-se políticas de ação afirmativa no ensino público. Qual é a sua opinião?

ROUTTI: A igualdade é muito importante, é preciso dar oportunidades a todos. É como em esportes: se você quer ser bom em futebol, todos os jovens têm que jogar futebol, para então você escolher os melhores para entrar no time e, com sorte, ganhar a Copa do Mundo. Se apenas uma parte da população for educada, perde-se o talento das famílias mais pobres. Não são apenas as crianças ricas que serão as mais talentosas no futuro, todas poderão ter sucesso. O recrutamento para uma economia do conhecimento tem que ser muito amplo. É preciso educar cada criança até o máximo de suas competências. Não até o mesmo nível, porque pessoas diferentes têm talentos diferentes. Algumas são mais bem-sucedidas em matemática, outras em música. Mas a economia do conhecimento se baseia em todos os talentos de um país. Esse é o papel do sistema educacional.

"Não só a Finlândia, como os outros países nórdicos, mostram que um sistema social justo é um elemento de competitividade"

"Alguns são mais bem-sucedidos em matemática, outros em música. A economia do conhecimento se baseia em todos os talentos"

 

 

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