A desigualdade digital
MARCIO MOREIRA ALVES
Depois da proposta de criação do Fundo Lula Contra a Fome, o presidente do
Senegal, Abdoulaua Wade, propôs em Genebra, durante a reunião convocada
pelas Nações Unidas para discutir a internet, a criação de um fundo
destinado a diminuir a desigualdade digital entre países ricos e pobres.
Hoje, 19% da população do planeta representam 91% dos usuários de
computadores. Na África negra, a percentagem de participação na internet é
de 1% da população, com uma participação mínima de mulheres.
O presidente Wade propôs que se destinasse ao fundo um euro por cada
computador vendido no mundo. Outros sugeriram que se destinasse ao fundo um
centavo por ligação telefônica feita, em qualquer lugar, a qualquer
distância. Ambas as propostas foram recusadas pelos Estados Unidos, onde
fica o controle da rede mundial, numa organização subordinada ao
Departamento do Comércio, apesar de o inventor da Web, o físico inglês
Berners-Lee, defender as duas propostas.
O Brasil é líder mundial no uso da TV na educação e, graças ao esforço e à
teimosia do ex-secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, é o
recordista em declarações eletrônicas do Imposto de Renda. O estado de São
Paulo, na gestão de Mário Covas, informatizou a Secretaria da Fazenda e
instituiu o leilão reverso pela internet das suas compras. Calcula-se que,
assim, economize 20% de seus gastos. O Brasil tem mais do dobro de
computadores ligados à rede que o México e 4,5 vezes os da Argentina. Essas
informações contrastam com o levantamento do IBGE, na pesquisa domiciliar
que faz regularmente. Somente 8,6% dos domicílios brasileiros têm
computadores. Segundo os quatro autores do recém-lançado livro “E-Gov.br”, a
posse de computadores por classe social na cidade de São Paulo é de 87% nas
residências da classe A, 53% na classe B e apenas 11% nas classes D e E. É a
exclusão digital promovida pela nossa péssima distribuição da riqueza.
No Canadá, que é uma espécie de Estados Unidos civilizado, 71% dos adultos
têm acesso à internet, e os cidadãos têm acesso a todas as informações e
serviços do governo on-line e no lugar de sua escolha. Na Coréia, 43% dos
domicílios estão conectados à internet, em razão da rápida urbanização do
país, onde a maior parte dos habitantes mora em edifícios de apartamentos
que, em média, distam 7,2 km das centrais de telefonia, o que facilita a
conexão com serviços de banda larga.
No Brasil, o governo Fernando Henrique desenvolveu, através da Casa Civil, a
oferta de informações pela rede. Hoje, todos os ministérios têm a sua
página, ainda que o bom exemplo do ministro Raul Jungman, da Reforma
Agrária, que colocou na internet a sua declaração de renda e a de seus
principais auxiliares, não tenha sido seguido.
O grande avanço da internet no atual governo federal deveu-se ao ex-ministro
das Comunicações Miro Teixeira. Usando dinheiro do Fust, que, por lei, não
pode ser contingenciado, foram estabelecidos 2.700 pontos de conexão com a
rede em escolas e hospitais. Na Amazônia, no Pantanal, nos destacamentos de
fronteira do Calha Norte, foram criadas 399 conexões via satélite,
diminuindo o isolamento de quem por lá vive.
Alguns governos municipais também têm feito a sua parte. Um exemplo é
prefeitura de Piraí, onde o prefeito Pezão inaugurou quiosques da internet
na praça da rodoviária, em dois distritos e treinou cerca de 300
funcionários para ensinarem o uso dos computadores, que empregam o software
Linus, gratuito.
O maior esforço de inclusão dos excluídos é realizado pelos CDIs, escolas
dos Comitês de Democratização da Informática, criados há 9 anos pelo
empreendedor social Rodrigo Baggio. Já existem 833 CDIs, em favelas,
presídios e até no Pinel do Rio de Janeiro, nos estados e em 11 países de
três continentes. Já passaram por essas escolas, que também ensinam
cidadania, 536 mil alunos, mais da metade mulheres, e muitos são
aproveitados como monitores dos recém-matriculados. Mais de meio milhão de
alunos pobres é uma marca que deveria ser saudada com todas as fanfarras do
governo e da mídia.
Cada CDI é um empreendimento social auto-sustentável, que cobra uma
matrícula de R$ 10 dos alunos e estabelece parcerias com empresas, grandes,
como a Philips, o JP Morgan, a Vale do Rio Doce, o Unibanco e que recebeu da
Microsoft uma doação de milhões de dólares em softwares. Alguns dos
presidentes e diretores dessas empresas participam das reuniões do conselho
do CDI, cujas contas são auditadas gratuitamente pela Century Consultoria.
Um exemplo do que a inclusão digital pode fazer é a Escola 600, de São
Geraldo do Araguaia, Pará, que fica a 600 km de Belém: já criou quatro
microempresas em parceria com o Sebrae, reflorestou as margens do lago
vizinho e, tendo verificado a diminuição do nível das águas, transferiu 60
mil peixes para o rio que corta o município. Diz Rodrigo: — Os CDIs são um
projeto para levar os brasileiros para o futuro.
MARCIO MOREIRA ALVES é jornalista.