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COBERTURA DO LIVRO NA Mídia

 

OPINIÃO
Publicado em O Globo, 15 de fevereiro de 2004 Versão impressa
Márcio Moreira Alves



   alves@rudah.com.br


A desigualdade digital
MARCIO MOREIRA ALVES

Depois da proposta de criação do Fundo Lula Contra a Fome, o presidente do Senegal, Abdoulaua Wade, propôs em Genebra, durante a reunião convocada pelas Nações Unidas para discutir a internet, a criação de um fundo destinado a diminuir a desigualdade digital entre países ricos e pobres. Hoje, 19% da população do planeta representam 91% dos usuários de computadores. Na África negra, a percentagem de participação na internet é de 1% da população, com uma participação mínima de mulheres.

O presidente Wade propôs que se destinasse ao fundo um euro por cada computador vendido no mundo. Outros sugeriram que se destinasse ao fundo um centavo por ligação telefônica feita, em qualquer lugar, a qualquer distância. Ambas as propostas foram recusadas pelos Estados Unidos, onde fica o controle da rede mundial, numa organização subordinada ao Departamento do Comércio, apesar de o inventor da Web, o físico inglês Berners-Lee, defender as duas propostas.

O Brasil é líder mundial no uso da TV na educação e, graças ao esforço e à teimosia do ex-secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, é o recordista em declarações eletrônicas do Imposto de Renda. O estado de São Paulo, na gestão de Mário Covas, informatizou a Secretaria da Fazenda e instituiu o leilão reverso pela internet das suas compras. Calcula-se que, assim, economize 20% de seus gastos. O Brasil tem mais do dobro de computadores ligados à rede que o México e 4,5 vezes os da Argentina. Essas informações contrastam com o levantamento do IBGE, na pesquisa domiciliar que faz regularmente. Somente 8,6% dos domicílios brasileiros têm computadores. Segundo os quatro autores do recém-lançado livro “E-Gov.br”, a posse de computadores por classe social na cidade de São Paulo é de 87% nas residências da classe A, 53% na classe B e apenas 11% nas classes D e E. É a exclusão digital promovida pela nossa péssima distribuição da riqueza.

No Canadá, que é uma espécie de Estados Unidos civilizado, 71% dos adultos têm acesso à internet, e os cidadãos têm acesso a todas as informações e serviços do governo on-line e no lugar de sua escolha. Na Coréia, 43% dos domicílios estão conectados à internet, em razão da rápida urbanização do país, onde a maior parte dos habitantes mora em edifícios de apartamentos que, em média, distam 7,2 km das centrais de telefonia, o que facilita a conexão com serviços de banda larga.

No Brasil, o governo Fernando Henrique desenvolveu, através da Casa Civil, a oferta de informações pela rede. Hoje, todos os ministérios têm a sua página, ainda que o bom exemplo do ministro Raul Jungman, da Reforma Agrária, que colocou na internet a sua declaração de renda e a de seus principais auxiliares, não tenha sido seguido.

O grande avanço da internet no atual governo federal deveu-se ao ex-ministro das Comunicações Miro Teixeira. Usando dinheiro do Fust, que, por lei, não pode ser contingenciado, foram estabelecidos 2.700 pontos de conexão com a rede em escolas e hospitais. Na Amazônia, no Pantanal, nos destacamentos de fronteira do Calha Norte, foram criadas 399 conexões via satélite, diminuindo o isolamento de quem por lá vive.

Alguns governos municipais também têm feito a sua parte. Um exemplo é prefeitura de Piraí, onde o prefeito Pezão inaugurou quiosques da internet na praça da rodoviária, em dois distritos e treinou cerca de 300 funcionários para ensinarem o uso dos computadores, que empregam o software Linus, gratuito.

O maior esforço de inclusão dos excluídos é realizado pelos CDIs, escolas dos Comitês de Democratização da Informática, criados há 9 anos pelo empreendedor social Rodrigo Baggio. Já existem 833 CDIs, em favelas, presídios e até no Pinel do Rio de Janeiro, nos estados e em 11 países de três continentes. Já passaram por essas escolas, que também ensinam cidadania, 536 mil alunos, mais da metade mulheres, e muitos são aproveitados como monitores dos recém-matriculados. Mais de meio milhão de alunos pobres é uma marca que deveria ser saudada com todas as fanfarras do governo e da mídia.

Cada CDI é um empreendimento social auto-sustentável, que cobra uma matrícula de R$ 10 dos alunos e estabelece parcerias com empresas, grandes, como a Philips, o JP Morgan, a Vale do Rio Doce, o Unibanco e que recebeu da Microsoft uma doação de milhões de dólares em softwares. Alguns dos presidentes e diretores dessas empresas participam das reuniões do conselho do CDI, cujas contas são auditadas gratuitamente pela Century Consultoria.

Um exemplo do que a inclusão digital pode fazer é a Escola 600, de São Geraldo do Araguaia, Pará, que fica a 600 km de Belém: já criou quatro microempresas em parceria com o Sebrae, reflorestou as margens do lago vizinho e, tendo verificado a diminuição do nível das águas, transferiu 60 mil peixes para o rio que corta o município. Diz Rodrigo: — Os CDIs são um projeto para levar os brasileiros para o futuro.

 
MARCIO MOREIRA ALVES é jornalista.

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