COLUNISTAS
Peter T. Knight
Acelerar o desenvolvimento socioeconômico do Brasil com um maior proveito
das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) é factível. A revolução
digital vem reduzindo os custos de processar, transmitir e armazenar
informação e conhecimento numa taxa vertiginosa há décadas e sem fim à
vista. Nesta economia cada vez mais global e baseada no conhecimento,
aproveitar sistematicamente esta revolução oferece a possibilidade de atacar
a centenária questão social, melhorar a segurança pública e aumentar a
competitividade do país com novos e poderosos instrumentos.
O Brasil já é um líder em várias dimensões de e-governo
(eleições, declarações tributárias entregues pela Internet, compras
governamentais online). Tem um pujante comércio eletrônico, um sistema de
assinaturas digitais em evolução e experiências animadoras em áreas tão
diversas como e-learning, e-saúde, e-segurança pública, e-judiciário,
inclusão digital e e-desenvolvimento, este somente em poucos municípios. Ao
nível federal, desde 2000, existe um Comitê Executivo do Governo Eletrônico
presidido pelo Ministro da Casa Civil e muitos estados têm estruturas
semelhantes para coordenar seus esforços. Mas o Brasil não deu um salto
qualitativo de desenvolvimento em parte porque 85% da população não tem
acesso à Internet. Precisa-se de um esforço nacional, que podemos chamar
e-Brasil, para avançar mais rapidamente.
O que seria um programa e-Brasil além do que já está em
marcha? Acima de tudo, a elaboração e implementação de uma visão e
estratégia intersetoriais de e-desenvolvimento com uma forte liderança das
cúpulas políticas e econômicas do país. Para tal é indispensável uma
articulação de contribuições dos setores público e privado, das
universidades e institutos de pesquisa, do terceiro setor e dos meios de
comunicação cinco setores, um penta-esforço. A chave é uma liderança do mais
alto nível, vinda do mais alto nível, começando com o Presidente da
República. É fundamental a colaboração dos meios de comunicação para
facilitar um diálogo nacional e a formação de um consenso em torno de uma
visão e estratégia desenvolvidas em forma participativa.
Qualquer estratégia de desenvolvimento econômico social
precisa de financiamento. O uso de TICs oferece muitas oportunidades para
realizar economias de escala, baixando os custos unitários de produtos e
serviços, aproveitando o poder de compra dos governos e a concorrência para
comprar mais barato. Pode, também, eliminar a duplicação de esforços,
aumentar a transparência e reduzir a corrupção, tanto no setor público como
no setor privado. Assim é possível fazer mais com os mesmos recursos.
Ademais, existe a possibilidade de atrair investimentos privados e receber
apoio de instituições internacionais, como o Banco Mundial e o Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID). O BID já fez dois grandes
empréstimos, totalizando US$1 bilhão para facilitar a implementação da Lei
de Responsabilidade Fiscal via informatização da função fazendária de
estados e municípios. O Banco Mundial acabou de aprovar seu primeiro
empréstimo de apoio a um programa de e-desenvolvimento para o projeto e-Sri
Lanka.
No caso de e-Sri Lanka, há seis programas financiados
pelo Banco Mundial: (1) o Programa de Política, Liderança e Desenvolvimento
Institucional para as TICs, (2) o Programa de Desenvolvimento de Recursos
Humanos e Promoção Industrial para TICs, (3) uma rede Regional de
Telecomunicações, (4) um Programa de Desenvolvimento de Telecentros, (5) o
Programa de Reengenharia do Governo e (6) o Programa e-Sociedade.
No Brasil, seria possível desenhar um programa mais
avançado, acelerando programas governamentais já estabelecidos (como o GESAC Governo
Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão  que promove inclusão
digital via satélite) ou em vias de estabelecimento (como e-PING e
promove a integração de redes governamentais nos três poderes do governo
federal e nos estados e municípios). Há muito mais para ser feito em setores
prioritários, como educação, saúde, segurança pública e modernização do
judiciário, promoção do e-comércio e facilitação do comércio internacional.
Mas a elaboração de uma visão para o e-Brasil, sua estratégia e um programa
capaz de atrair apoio interno e financiamento externo, precisa de liderança
e prioridade nacionais do mais alto nível até o momento não visíveis.