O sistema de financiamento da
educação superior do Brasil é regressivo. Não favorece a inclusão social. A
grande maioria dos estudantes nas universidades publicas são filhos das
classes A e B. Recebem a matrícula gratuita, financiada com impostos pagos
por todos os brasileiros, e os pobres pagam proporcionalmente mais impostos
do que os ricos. O dinheiro público gasto para financiar a educação dos
ricos não pode ser usado para melhorar as escolas públicas cuja qualidade é
ainda bastante deficiente, nem para dar bolsas ou empréstimos para os
estudantes de baixa renda.
A grande
maioria destes estudantes teve sua educação pré-universitária em escolas
privadas, parcialmente financiada com deduções do IRPF. Algo em torno de
10% da população brasileira mais rica está sujeita à IRPF. Os impostos não
pagos (por causa destas “renúncias fiscais”) são corretamente considerados
gastos federais indiretos pela Secretaria de Política Econômica do
Ministério da Fazenda, num esclarecedor trabalho disponível no seu site
www.fazenda.gov.br, Gasto Social do Governo Federal 2001 e 2002.
Este
documento revela que “Cerca de 46% dos recursos do Governo Federal para o
Ensino Superior beneficiam apenas os 10% mais ricos da população”. Seria
diferente para os governos estaduais? E veja as comparações internacionais
neste estudo: o esforço fiscal (gasto por aluno como porcentagem do PIB)
para educação superior gratuita é muito maior no Brasil – 170% para o
Brasil, 100% nos países da OCDE, 21% no Uruguai , 20% Chile, 65% China e 95%
Índia.
Aposto
que na ordem de 50% dos matriculados nas universidades públicas são filhos
da Classe A. Aposto igualmente de que, fora das PUCs e de algumas poucas
outras universidades privadas de elite (aliás, parcialmente financiadas com
outras “renúncias fiscais”, quer dizer subsídios), a clientela das
universidades privadas (e pagas) vem das classes B e C. E é muito difícil um
filho de família de Classe D ou E entrar em qualquer universidade.
Melhorando a qualidade do ensino público ajuda, mas não resolve – os ricos
estudam em escolas melhores, e se isto não basta, pagam cursos privados para
passar o vestibular das universidade públicas.
O
ex-Ministro da Educação Paulo Renato não queria tocar no abacaxi da
matrícula paga, dando bolsas para quem precisa (ou melhor, combinação de
bolsas, empréstimos e trabalho para a própria universidade). Ele preferia
aumentar o número de alunos nas escolas secundárias públicas, criando assim
uma pressão crescente para educação superior. Seria, então, impossível
satisfazer esta demanda futura sem a matrícula paga dos ricos. Mas se cada
Ministro da Educação passa o abacaxi para seu sucessor, evitando a oposição
dos ricos (disfarçada como defesa de educação superior gratuita dos pobres
que quase inexiste), o Brasil vai continuar a reproduzir um sistema
sumamente injusto, sistema que perpetua uma vergonhosa distribuição de renda
e riqueza.
Minha
proposta é simples: Que os filhos da Classe A paguem sua matrícula nas
universidades públicas. Com os recursos liberados, seria criado um fundo
para estabelecer novos cursos superiores de educação a distância (EAD). Para
ter acesso a estes recursos, universidades públicas (e talvez privadas, por
que não?) concorreriam para oferecer cursos de alta qualidade de EAD com
custos mais baixos do que os presenciais, mas sujeitos às mesmas condições –
que os ricos paguem e os não ricos recebam a ajuda financeira que precisam.
Esta
proposta merece um sério debate nacional, como o Ministério da Fazenda e
Veja começaram, comparando o destino do gasto social no Brasil e no Reino
Unido. A mídia pode e deve fomentar este debate. Assim pode-se criar
um ambiente mais favorável para medidas justas, mas agora politicamente
difíceis.
Os
brasileiros aprenderam a viver com a Lei de Responsabilidade Fiscal, fazer
um ajuste macroeconômico extremamente duro e reformar a previdência, também
injusta. Por que não se ataca o problema da educação superior via EAD com
recursos que não têm que ser arrancados de outras fontes, somente das
famílias que podem e devem financiar eles mesmos a educação superior
de seus filhos?