“Se formos rápidos no planejamento da
implantação da televisão digital brasileira e no desenvolvimento
de soluções locais criativas, envolvendo conteúdo e redes
inteligentes, para facilitar a inclusão digital, o Brasil terá
uma enorme oportunidade, não só de construir uma solução
inteligente para a sociedade, mas também para outros países da
América Latina, África, este europeu e a Ásia, transformando o
país em um importante exportador de soluções.” Quem diz isso é
Fernando Bittencourt, Diretor da Central Globo de Engenharia,
num capítulo do livro e-Desenvolvimento no Brasil e no Mundo:
Subsídios e Programa e-Brasil a ser publicado pela Editora
Yendis.
No processo de desenhar e organizar este livro
com meus colegas Ciro Campos Christo Fernandes e Maria Alexandra
Cunha, fiquei cada vez mais impressionado com as oportunidades
que a TV digital apresenta para a construção de um Brasil mais
justo e mais competitivo, os dois principais objetivos do
Projeto e-Brasil que coordeno. Depois de uma apresentação sobre
a TV Digital na Associação Comercial do Rio de Janeiro por João
Roberto Marinho, procurei obter um capítulo escrito por um
qualificado profissional das Organizações Globo, neste caso
Fernando Bittencourt. Outros capítulos neste livro também tratam
o tema.
Considere outro trecho impactante do capítulo
de Bittencourt: ”Evidentemente, quando falamos em inclusão
digital, não estamos falando em apenas uma caixinha conversora
barata para receber TV digital nas televisões atuais, o que
falamos passa pela implantação e forte investimento nos nossos
centros de pesquisa, coordenação dos trabalhos de diversas
universidades para que esses desenvolvam soluções complementares
e absolutamente inovadoras, tanto para a rede – que certamente
não será composta apenas pela rede de televisão, pois necessita
de uma rede de telecomunicações atuando de forma complementar -
como para o hardware e, principalmente, para as aplicações que
envolvam interatividade dos receptores.”
Vamos imaginar o que poderia ser criado.
Dentro da caixinha conversora (set top box – STB) do sinal de TV
digital para as TVs analógicas existentes ou dentro de uma nova
TV digital, poderíamos ter um computador de baixo custo equipado
com receptor de Internet sem fio (Wi-Fi, Wi-MAX). Com isto, a TV
digital teria um canal de retorno para poder desempenhar, com a
ajuda de outros softwares que podem ser desenvolvidos, funções
interativas mesmo – ou típicas da Internet (a tela da TV viria a
ser o monitor do computador) ou mais sofisticadas, usando dados
transmitidos pelas emissoras de programas de TV digital. As
possibilidades para educação, saúde, comércio, transações
bancárias e todo tipo de serviços governamentais são quase
ilimitadas. Estimamos que para agregar um computador pequeno que
use o sistema operacional Linux num STB ou em uma nova TV
digital custaria na ordem de R$150 a R$200. E projetos para
fazer isto já estão em marcha.
Mas de onde viria a conexão à Internet? Hoje
uma conexão de banda larga no Brasil custa muito caro, seja via
linhas telefônicas convencionais (ADSL), cabos coaxiais de TV
(tipo Net), ou via satélite – esta últimasendo a mais cara, mas
a única maneira de conseguir acesso na maioria do território
brasileiro. Realmente a banda larga está fora do alcance das
classes C, D, e E se não estiver num ponto de acesso coletivo,
um telecentro, uma escola, um café Internet, etc. Mas não tem
que ser assim. Em alguns municípios pioneiros do Brasil, como
Piraí e Rio das Flores no Estado do Rio de Janeiro e Sud
Menuschi no Estado de São Paulo, o sinal Wi-Fi ou Wi-MAX já está
disponibilizado como serviço público sem tarifa ou a preços
módicos. O número de tais municípios deve crescer rapidamente
com a aproximação das eleições municipais de 2008.
Sabemos que o Plano de Governo de José Serra
prevê ter 645 municípios digitais em São Paulo, e que o sinal da
Internet será entregue às prefeituras de municípios até 100.00
habitantes usando a Rede IntraGov, rede de voz, dados e vídeo IP
do Estado de São Paulo para distribuição nos seus municípios. O
Programa de Governo continua: “O segundo passo para
universalizar o acesso com qualidade à Internet será abrir a
conexão de banda larga por meio de redes sem-fio (wireless) para
qualquer cidadão, empresa ou entidade social do município. A
meta é instalar pelo menos uma conexão de 2 Mbps e pontos de
acesso wireless em cada município até 2010.” Sabemos também que
no município de Rio das Fores e parte do município de Piraí no
Rio, o programa Gesac, do Ministério de Comunicações já entrega
o sinal da Internet via satélite para distribuição wireless
nestes municípios. O ex-prefeito de Piraí (que estabeleceu o
programa Piraí Digital e ganhou seu segundo mandato com 88% dos
votos) é agora Vice Governador do Estado do Rio de Janeiro e
quer 92 municípios digitais no seu estado.
Pense: se for liberado o Fust – Fundo de
Universalização de Serviços de Telecomunicações – para programas
de inclusão digital desta natureza, complementando os recursos
dos estados, dos municípios, do setor privado e das ONGs, será
possível levar a Internet de banda larga a todos os municípios
do Brasil. E a disseminação dos STBs e das novas TVs digitais
poderia ser muito mais rápida do que se imagina. São mais de R$6
bilhões no Fust que ficaram sem uso, com mais de R$700 milhões
entrando neste fundo no ano de 2007. Poderia ser um programa tão
popular como a Bolsa Família, e muito mais revolucionário no seu
impacto sobre o desenvolvimento de um país mais justo e mais
competitivo. E não esqueça as palavras de Fernando Bittencourt:
com a TV e inclusão digitais podemos estar “transformando o país
em um importante exportador de soluções.”