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e-Desenvolvimento, visão e consenso

Artigo publicado na revista, Banco Hoje,  abril de 2007, p 19. 

COLUNISTAS Peter T. Knight

   Líderes políticos que perseguem tenazmente uma visão de um futuro desejado – uma visão que vem a ser compartilhada pelas principais elites e por boa parte da população – e políticas públicas inteligentes que sustentam a realização desta visão são fatores chaves para realizar o potencial que as tecnologias da informação e comunicação oferecem para queimar etapas e acelerar o desenvolvimento sócio-econômico.        

   Não é fácil construir um consenso nacional, ou pelo menos, uma coalizão capaz de vencer as resistências naturais dos que querem deixar as coisas como estão para ver como ficarão, os que preferem “empurrar com a barriga”, a inércia dos que não querem arriscar a mudança. O Brasil teve líderes assim no passado – Juscelino Kubitschek é talvez o melhor exemplo. Seu Plano de Metas transformou o país, interiorizou o desenvolvimento. É verdade que deixou seqüelas nada desejáveis, especialmente no plano macroeconômico, mas teve a visão, liderança e capacidade de mobilizar a nação em torno desta visão. Não é por nada que ainda é o presidente mais querido pelos brasileiros.

   E agora os brasileiros sabem que o equilíbrio macroeconômico não deve ser sacrificado. A via de mobilizar recursos para objetivos prioritários é cortar despesas nada prioritárias e desinflar um aparato de Estado sobre-dimensionado. Isso é possível, e temos exemplos no Brasil (o saneamento das finanças do Estado de São Paulo, o choque de gestão aplicado em Minas Gerais) e no mundo (os países da Europa que equilibraram suas finanças no processo de formação da União Européia).   

   Outros países – como Canadá, Cingapura, Coréia, Finlândia – já trilharam o caminho do e-desenvolvimento, desenhando políticas públicas para este fim e mobilizando o apoio político indispensável, e construindo ou mantendo o equilíbrio macroeconômico.

   Um líder visionário pouco consegue se não mobiliza parcerias. Estas parcerias devem envolver cinco atores: o setor público, o setor privado, a academia (universidades e institutos de pesquisa), a sociedade civil organizada (ONGs, OCIPs, etc.) e a mídia. O papel da mídia merece destaque. Alavanca as outras parcerias, ajuda a promover o debate, a identificar os assuntos que precisam ser negociados entre os principais jogadores e propagar a visão e a formação do consenso. No Brasil, a televisão é a mídia mais importante, e sem sua participação no processo, é difícil.

   O e-desenvolvimento passa pela inclusão digital (acesso universal à banda larga e computadores capazes de fazer uso da Internet). Para isto a TV é ainda mais importante. Por quê? A TV digital está sendo lançada no Brasil este ano e no seu bojo pode vir um computador de baixo custo com capacidade de conexão à Internet aproveitando tecnologias sem fio (Wi-Fi e Wi-MAX) ou a PLC (powerline communications – banda larga transmitida na rede de energia elétrica). Este computador não deve custar mais que R$150 e pode ser incorporado na set-top box que converte o sinal digital em analógico para televisores convencionais, ou nos novos televisores digitais. As emissoras de TV, que venceram o debate sobre o sistema de TV digital a ser adotado no Brasil, devem ter um interesse direto em promover o acesso grátis ou de baixo custo à Internet pelo menos de banda média (vamos dizer, de 256 kbs, suficiente para transações eletrônicas de e-comércio, e-banco, e-governo e e-educação e treinamento). É o canal de retorno que valoriza seu sinal. Devem ter um interesse em soltar o Fust – Fundo de Universalização de Serviços de Telecomunicação – para programas de inclusão digital. Até agora o Fust, criado no ano de 2000, não foi usado para universalizar serviço algum. É um recurso designado para um setor estratégico. É urgente que seja usado para a inclusão digital.

   Mas temos líderes políticos que entendem a importância estratégica do e-desevolvimento e da inclusão digital para acelerar o desenvolvimento socioeconômico do país? Luiz Fernando de Souza (Pezão) é um líder deste tipo – liderou no seu município, como prefeito, a criação do Piraí Digital, município modelo brasileiro premiado nacional e internacionalmente. E foi reeleito prefeito com 88% dos votos em 2000. Agora é Vice Governador do Estado do Rio de Janeiro. Formou mais de 20 parcerias, com todos os setores mencionados acima, para tornar o Piraí Digital uma realidade. Agora quer 92 municípios digitais no seu estado. O Presidente do Comitê de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados, Julio Semeghini, é outro líder que promove o e-desenvolvimento. Luta para liberar o Fust para inclusão digital. Há outros exemplos – no Programa de Governo de José Serra há um compromisso de criar 645 municípios digitais no Estado de São Paulo.   

   Provavelmente há mais líderes que compartilham esta visão, talvez aí se incluindo o Presidente Lula e a Ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. A promoção do e-desenvolvimento no nível municipal pode tornar-se um fator importante nas eleições municipais de 2008. E o Ministério das Comunicações já lançou um Programa Nacional de Cidades Digitais.


 
 

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