A Finlândia, com uma pequena, mas extremamente bem educada população de uns cinco milhões, é um dos países mais competitivos no mundo.
Saiu de uma forte crise macroeconômica na década dos noventa acelerando o investimento nacional na pesquisa e desenvolvimento (P&D) de 1% até 3.5% do PIB em tempo de aumento de desemprego e queda na produção. Sobreviveu a crise gêmea de seu enorme vizinho e maior mercado, a Rússia. Reduziu o déficit público e a razão dívida/PIB até chegar às metas rigorosas de Maastricht, e conseguiu entrar na União Européia, ganhando uma moeda forte e novos mercados, mas perdendo instrumentos como as políticas monetária e cambial. Enfrentou uma concorrência feroz dentro e fora da União Européia.
Mudou sua matriz energética optando pela construção de usinas nucleares. Agora estas formam a base estável desta matriz e uma terceira usina nuclear está em construção. Mas a Finlândia é um dos países mais “verdes” no mundo. Transformou-se de país rural exportador de matérias primas extraídas de suas florestas em país com população predominantemente urbana (que mantém contato com suas raízes rurais) e em exportador de conhecimento na forma de produtos de alta tecnologia. Modernizou e informatizou todo o complexo florestal e hoje e investidor global na área de papel e celulose e exportador de maquinaria para produção de papel e manejo florestal. Em telecomunicações é um dos países mais conectados do mundo – hoje a banda larga chega a mais de 80% dos lares.
Começando na década dos 80, a Nokia decidiu deixar de ser um conglomerado produzindo os mais variados produtos desde botas até cabos elétricos e concentrou-se na telefonia móvil. Como outras empresas finlandesas, ao mesmo tempo recebeu vultosas infusões de capitais estrangeiros e virou empresa multinacional forte, ainda mantendo a liderança em P&D e sua gestão global na Finlândia. E em menos de cinco anos, a Finlândia fez a transição à TV digital – hoje não há mais transmissões de TV analógica.
Há muitas razões para o sucesso da Finlândia – talvez a mais importante seja seus fortes investimentos em educação e P&D. Mas outra razão menos conhecida é que os finlandeses sabem tomar decisões duras que duram. Uma vez que decidem, seguem adiante sem voltar para trás. Nada de vai e vem, mas com flexibilidade para adaptar-se quando necessário. Qual o segredo? É o valor que os finlandeses dão à formação de um consenso nacional que sustenta estas decisões.
O país estava à beira de uma guerra civil na época da revolução bolshevista na sua vizinha Rússia em 1917. Desenvolveu um sistema político baseado em três partidos – um de esquerda, um do centro e um conservador. Quase sempre se precisa de uma coalizão de dois destes três para formar um governo no seu sistema parlamentarista, assim vai um pouco à esquerda ou à direita, mas a âncora está no centro, evitando extremos.
Como se pode perceber das mudanças dramáticas na economia finlandesa dos últimos vinte anos, os finlandeses podem tomar decisões bastante radicais. Para tal construíram instituições muito interessantes, como o Comitê do Futuro do parlamento, cuja função e preparar o país para o que o vier, realizando estudos de tendências, informando o parlamento com relatórios debatidos nele, e uma fundação criada pelo mesmo parlamento, a SITRA.
A SITRA que tem função similar à do Comitê do Futuro, mas uma grande independência dos políticos – vive de um dote criado no seu estabelecimento em 1967 e da renda de seus investimentos. Até funcionou numa época como venture capitalist investindo em novas tecnologias.
Mas uma de suas funções durante muitos anos foi de organizar seminários para novos parlamentares, empresários, sindicalistas, acadêmicos e líderes da mídia e de ONGS sobre assuntos relacionados com a estratégia socioeconômica a ser seguida – assuntos como a Finlândia na EU, a Finlândia e a globalização e a Finlândia na sociedade do conhecimento. Estes seminários duravam mais ou menos duas semanas cada um. Durante este período, os participantes, mais ou menos 25, funcionavam como um gabinete de ministros – ouviam palestras de especialistas nacionais e internacionais, poderiam pedir depoimentos de ministérios, do Banco Central, e de outros órgãos governamentais, e ao final tinham que preparar um orçamento plurianual, onde decidiam a alocação de recursos para lidar com as tendências que estudavam. Este processo, repetido várias vezes por ano durante quase 30 anos, permitiu que diferentes setores da sociedade finlandesa pudessem apreciar não só temas importantes para o futuro do país, mas também os diferentes pontos de vista dos participantes, assim ajudando na formação de consensos que ajudam muito na tomada de decisões nacionais.
Faz alguns anos a SITRA, sob novas lideranças, deixou de organizar estes seminários e lançou uma nova série de programas nacionais, bem financiados, para estudar temas como a energia e a reforma do sistema de saúde para uma população cada vez mais velha – de novo abrindo caminhos para decisões importantes de reorganização de setores importantes para seu futuro. Mas sempre buscando aplicar inteligência e estudos sistemáticos para encontrar soluções politicamente e economicamente viáveis para o país.
A pequena Finlândia e suas instituições têm lições importantes para o Brasil, país do futuro. E tem investimentos aqui e uma economia complementar à brasileira. Vale a pena intensificar as relações com a Finlândia – para o benefício mútuo.
