Levar o poder das tecnologias de informação e comunicação (TICs) ao sistema de transmissão, distribuição e uso final da energia elétrica potencializa economias substanciais para as empresas de transmissão e distribuição e para consumidores. Pode também resultar na redução de emissões de C02, assim dando benefícios ambientais e promover a inclusão digital.
Tudo isto se resume no termo smart grid (ou rede elétrica inteligente), que significa o uso de comunicação bi-direcional na rede elétrica e de recursos computacionais para melhorar a eficiência, confiabilidade e segurança das redes de transporte de energia e possibilitar a oferta de novos serviços aos consumidores.
A comunicação dentro de redes elétricas pode ser via fibras ópticas (é comum incluir fibras óticas em redes de transmissão de larga distância e alta voltagem, muitas vezes penduradas nos mesmos postes dos cabos elétricos) e via tecnologias que usam fios elétricos de média e baixa voltagem como canais para comunicação IP, tecnologias conhecidas por seus acrônimos em inglês -- BPL (broadband over powerline) ou PLC (powerline communications). Esta comunicação bi-direcional permite conhecer em tempo real a condição de fios, cabos, transformadores e o consumo até de dispositivos específicos instalados em fábricas, escritórios ou domicílios, permitindo seu controle (desligar ou ligar) e o uso de tarifas que variam de acordo com a carga do sistema, hora do dia ou estação para incentivar a conservação de energia, reduzindo seu uso não econômico em horas de demanda máxima. O resultado é a conservação de capital escasso (reduzindo a necessidade de construção de novas usinas) com benefícios ambientais também. Para tal se usam técnicas conhecidas de novo por siglas em inglês – AMR (advanced meter reading) e AMI (advanced meter infrastructure).
Outra maneira em que se usa esta comunicação bi-direccional com benefícios econômicos e ambientais é permitir que consumidores de energia também produzam e vendam energia de fontes renováveis (como o sol, o vento, ou pequenas barragens), vendendo o excesso de produção sobre consumo. Também é possível usar os carros elétricos do futuro (plug-in electric vehicles) com suas baterias como reservas de energia armazenada que pode ser adquirida em horas de mínima demanda (por exemplo, durante a noite) e vendida em horas pique se o carro está na garagem, ligado à rede inteligente. Claro, também é possível que a empresa elétrica venda estes serviços de AMI e de AMR às companhias de gás ou água, aproveitando o mesmo sistema de comunicação IP. Finalmente, e aqui há um potencial problema de regulação, o mesmo sistema de comunicação IP pode ser usado para vender serviços de internet de banda larga – neste caso a empresa elétrica vira uma empresa de telecomunicações.
Nos dias 10 e 11 de novembro, em São Paulo, foi realizado o Fórum Latino-americano de Smart Grid (ver www.smartgrid.com.br), em que mais de 220 participantes e 40 palestrantes compartilharam experiências internacionais e brasileiras relacionadas com o uso de redes elétricas inteligentes. Estavam presentes representantes das duas principais agências reguladoras brasileiras envolvidas (Aneel e Anatel), pesquisadores, consultores, empresas distribuidoras de energia, e fornecedores de hardware e software usados nestas redes.
No Brasil as experiências ainda são incipientes – a Cemig, por exemplo, está desenvolvendo um programa que se chama Intelligrid, ainda em fase de estudos – e na Europa e Estados Unidos há programas-piloto em implementação, cujos resultados devem ser avaliados no ano 2009. Entre eles a rede da Duke Energy em vários estados do sudeste e de Excel na cidade de Boulder, no estado de Colorado nos Estados Unidos e da Enel S.p.A. na Itália) e da Endesa, em Puerto Real, na Espanha. Tanto o Governo dos Estados Unidos como a União Européia estão dando incentivos para a construção e uso de Smart Grids.
As tecnologias de Smart Grid também podem ser usadas para reduzir as perdas técnicas (no próprio sistema de transmissão) como as perdas chamadas ‘não técnicas” (principalmente o furto de energia – os tais gatos). Numa rede inteligente é possível saber em tempo real onde está indo a energia. As perdas “não técnicas” no Brasil são enormes: só nas 61 distribuidoras que passaram por revisão tarifária a Aneel estima serem as perdas não técnicas em 21 Gwh (gigawatt horas) por ano com um valor (incluindo impostos não recebidos) de R$7,6 bilhões em 2008. As perdas técnicas, que também podem ser reduzidas com uso de tecnologias de Smart Grid, são outros 28,5 Gwh. São números de peso a contemplar.
Assim, as tecnologias de smart grid, já disponíveis, oferecem grandes possibilidades de aumentar a eficiência da rede elétrica, proporcionar benefícios ambientais, e facilitar a inclusão digital. Lembrem que o fio mais democrático é o fio elétrico – entra em 97 por cento dos domicílios brasileiros.
Os principais obstáculos à implementação de smart grids parecem ser a cultura conservadora de muitas empresas do setor elétrico, a falta de padronização e interoperabilidade de equipamentos e a multiplicidade de regimes regulatórios.
